Meu Henrique,
famoso é o dia de hoje, no qual comemora-se (é essa a palavra certa?) a possibilidade inoportuna de contar uma mentira sem receber castigo algum. Eu, que raramente participo desse tipo de brincadeira, fui enganada das mais variadas maneiras. Disseram-me que havia um inseto gigante na minha roupa, que todas as fotos da minha câmera tinham sido apagadas, que mudaram o dia da prova e que tinha um cabelo branco em meio aos meus fios castanhos. Tudo, obviamente, uma suave e inocente brincadeira.
No entanto, Henrique, a maior mentira que, hoje, me contaram, lembrou-me de nós. Lembrou-me daquele dia em que, sentados no balanço do parque, você trouxe uma tulipa vermelha e encaixou-a em meus cabelos despenteados pelo vento. Lembrou-me da sua voz sussurrando ao meu ouvido que as estrelas poderiam cair sobre nós, que o céu inteiro poderia chorar sua dor ao perder aquelas que o iluminavam, que os nossos corações poderiam ser arrancados do peito e jogados em buracos negros, mas que seu amor por mim seria eterno.
E não era dia de mentir, Henrique, não era… Não era dia de gritar ao céu seu amor por mim e desafiá-lo a nos separar, meu bem, se você não estava realmente disposto e mover a abóboda celeste em prol do nosso sentimento. Não era dia de pegar-me no colo e cantar nos meus ouvidos a música mais delicada que seus doces lábios poderiam recitar, se nenhuma nota daquelas, em tom maior ou menor, era condizente com o que seu coração sentia.
Não, Henrique. Não era permitido a você me dar asas e cortá-las ao primeiro vendaval que tentasse nos tirar da rota. E você, logo você, que sempre soube como lidar com meu coração sem atear-lhe fogo, foi quem amarrou-me pelo peito e deixou que eu caísse em um abismo que nenhum de nós sabia a profundidade.
E eu ainda caio, Henrique… Eu caio a cada dia que penso em você.
E, então, mentiram dizendo que meu coração não precisava mais da sua respiração contínua ao meu lado para funcionar direito. Disseram-me que eu poderia viver sem você, mas estavam errados, é certo. Eu nunca pude.
Mentiram, diariamente, desde seu último olhar para dentro da minha alma, para que eu tentasse viver num mundo no qual você não estaria presente para me ensinar a voar e me levar ao céu. E eu me enganei todo esse tempo para, ironicamente, encontrar-me em pura verdade no único dia do ano em que se pode mentir descaradamente.
Essa é a verdade, Henrique: eu não posso viver sem você e nem saberia como. Eu não sei como bater asas para te encontrar no meio de um caminho não definido, porque você nunca me disse para onde iria. E o problema, meu bem, é que eu cansei de enganar-me com doces ilusões e consolos que apenas servirão para me fazer cair por terra quando a verdade absoluta por trás dessas mentiras aparecer.
Se eu dissesse que ainda penso em você, o que você faria? Continuaria seu voo em uma caminhada eterna sem mim ou desceria para me buscar e tentar um recomeço incerto?
Ainda espero por suas improváveis respostas a um coração quase morto.
Sua, apenas sua,
Alice.