Antítese do Amor

Se tivesse asas, voaria.

Joseph Lorusso (1966)

Joseph Lorusso (1966)

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Acabei de escrever um texto enorme sobre a beleza de fins inacabados e, ao tentar postar, perdi tudo. Cada ínfima palavra. Acho que foi apenas um sinal de que fins devem ser fins e ponto final. Complicado, talvez, mas sempre foi complicado…

Acho que esse é o fim. Não há mais o que dizer. Eu preciso me libertar. O texto começava com “há tempos não toco um papel fino com minha curva caligrafia”. Bom, por aqui, então, mais tempo se passará até que eu volte a escrever sobre algum outro assunto. Algo sem fim, talvez. Obrigada a todos. Por tudo. Eu realmente adoro todos vocês!

Atenciosamente,

Raíssa.

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Eu olho para cima e vejo o quão distantes estamos de tudo. A noite está linda hoje, meu menino. Nossa estrela brilha no céu, e o vermelho que dela emana lembra-me do quanto seria bom ter seus braços me envolvendo dessa brisa fria e calma que entra pela janela de um quarto escuro e solitário. As estrelas parecem ser tão pequenas, meu amor, tão maravilhosamente ínfimas… Você não vê? A aparente insignificância de algo tão belo e extraordinário me faz pensar em nós. Em como nosso amor é simples, mas doce. Grande. Bonito.
Eu queria ser capaz de alcançar uma estrela. Você poderia me colocar nos ombros, me ensinar a voar, me levar ao céu e percorrer o brilho noturno ao meu lado. Eu não soltaria suas mãos, você não desistiria do nosso amor e seríamos eternamente parte do céu, parte da noite, parte dessa escuridão imensa que nos cerca a cada pôr-do-sol. Amaríamo-nos a cada anoitecer ao lado de um brilho tão forte quanto o que sentimos. Seríamos um só, vagando pelo céu como objetos celestiais…
Ah, pegue-me pela mão, meu amor. Diminua essa distância entre eu e você, entre nós e o infinito. E que sejamos como ele: uma imensidão sem terminação.

— Raíssa César, objetos celestiais.

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Olhar nos seus olhos e sentir a força do nosso amor incendiando o caminho de encontro dos nossos olhares.
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Tá frio na rua. Marcamos um cinema, antes pousamos num café de título francês e acabamos ficando por lá tempo demais. Você pediu um capuccino sem chantilly, mas veio com chantilly. Sempre vem com chantilly, você diz. Não é garota de chantilly. Eu peço um expresso duplo. E depois outro. Aí mais um. Você mexe a colher na taça lentamente, falando sobre uma tartaruguinha de estimação que supostamente fugiu. A gente ri. Seu nariz tá vermelho. Eu tô nervoso. Mais um expresso, moça, por favor. Obrigado. Me chama de cavalheiro. Tomo como elogio, meio sem saber se é bom. Penso que é. Penso. Você olha muito pros lados e isso me deixa um pouco inseguro. A janela, o caixa, os doces na vitrine. E diz que meu olhar é penetrante, dá um pouco de vergonha. Que nada, é o frio. Você diz que gosta de sair comigo, dar voltas na cidade, sei lá. Eu sei escutar, não sou como aqueles caras. Não sei que caras são esses, mas concordo. Estou calado justamente por estar nervoso. Aqueles caras ficam nervosos? Eu fico. Você sorri pra mim e desvia o olhar antes que eu tenha um AVC bem na sua frente. Aí gosto mais de você porque acaba de salvar minha vida. Um silêncio constrangedor paira entre aquele “eu sei que você sabe que estou a fim de você tanto quanto sei que você sabe que está a fim de mim”. Permanecemos quietos, fingindo que ninguém anda louco pra ficar bem agarradinho de outrem. Mas até o padeiro na cozinha sabe. Aí lembro daquela do Los Hermanos. Canto ela um pouco, baixinho, fitando nada. Você grita que adora essa. Eu me assusto. Não por gostar dessa, mas pelo grito. Eu já sabia. Agora vai lembrar de mim sempre que escutar. Ou seja, quase sempre. Aí eu canto como quem não quer nada, querendo tudo “…até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei…”. Você finge não entender. Não temos grana nem intenção de ir a lugar algum. É noite, tá frio. Saímos pela calçada com a música na cabeça. Com a voz catarrenta você segura o poste que indica a rua José do Patrocínio e grita alto “…e ir onde o vento for que pra nós dois sair de casa já é se aventurar!” Uma senhorinha olha e te acha doida. Você rodopia no poste. Linda e abobada. Eu esqueço um pouco que caminho nervoso pela noitinha. Você também tá nervosa, mas disfarça com esses berros. Ou talvez seja apenas eu. Vou levando você pra casa, sem intenção de subir escadas, além das suas. Eu apoio as costas na parede fria, com as mãos no bolso, me achando eloquente. Você rodopia agora o chaveiro. Você gosta de rodopiar coisas, constato. Resiste em penetrar a fechadura. Espera que eu entenda esses signos femininos, mas eu tô nervoso demais pra captar o óbvio. Um sentimento estranho de que aquilo acabe logo. É uma tortura. Não como aquelas torturas com arame temperado a fogo, mas ainda assim. Ok, então tá, eu digo. Então tá então, você diz. Você se despede beijando meu rosto. Ninguém nunca beijou um rosto por tanto tempo. É meio que um recorde. Fico pensando asneiras quando assustado. Aí você fica na ponta dos pés e me enfia a língua, como se isso fosse coisa de menina desde, sei lá, o tempo dos hominídeos. Você enfia agora as mãozinhas nos bolsos da jaqueta que me deixa parecido com o Richard Ashcroft (ao menos eu acho). Percebo também que gosta de enfiar coisas em lugares. Diz querer continuar quentinha. Não fica bem eu subir, sei disso. Ficamos ali passando um pouco de frio e perigo. Não é confortável ali. Isso me deixa triste, você precisa logo entrar. Foi divertido. Você sorri gostoso. E pergunta se também senti borboletas no estômago. Claro que sim. Eu comeria até baratas por você, exagero. Mas é sério mesmo. Você diz “ui, que nojo” rindo. E diz que gosta de mim, faço você rir. Merda. O relógio é tipo um assassino do amor. Você me diz pra não falar palavrões. É feio e minha boca é tão bonita. Entendo que minha roupa é tão bonita (essa jaqueta realmente me deixa foda). Não, não. Boca. Lábios. Eu beijo mais uma vez, aquecendo suas orelhinhas. Você diz que queria ficar mais tempo. Eu digo que vou ligar. Você diz que tudo bem, não precisa. Mas eu quero. Eu nunca sei o que fazer numa situação dessas. Quanto tempo espero antes de ligar? Vou embora alegre, pensando em você e bolando um jeito de não mais falar palavrões. Porque nunca mais quero ter de lavar a boca.

— Gabito Nunes.

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A cama está desarrumada, o seu travesseiro ocupa o lugar ao lado do meu. Tão certo. Tão bonito. O seu cheiro está no meu pescoço, meus lábios sentem sua pele pressionada a ele. Tão inacreditavelmente perfeito. Meus dedos sentem os seus ainda entrelaçados a eles, como se sua partida tivesse sido apenas imaginada. Mas você saiu, é fato, e, por mais que eu saiba que logo nos veremos, esse sentimento de que falta alguma coisa todas as vezes que você está longe é incontrolável. Falta você, entende? Por um tempo ínfimo, é certo, mas falta.

E esse amor que eu sinto… Esse amor que nós sentimos… Ah.. É tão nosso. Cada vez que sua respiração encontra a minha no breve momento que antecede o toque de nossos lábios, cada vez que minha carne se arrepia com a aproximação de sua carne, cada vez que nossos lábios se devoram com desejo e com amor, eu sei que as estrelas estão brilhando no céu porque a vida é certa ao seu lado. E, se o brilho do céu é capaz de inebriar-me menos que o brilho dos seus olhos, eu sei que as curvas do meu corpo se encaixam às suas não somente por coincidência e por escolha, mas por sermos partes perdidas de um só que se encontraram numa esquina perfeita.

A verdade é que metáforas foram feitas para proporcionar prazeres estéticos, mas as batidas incessantes em meu peito poderiam ser traduzidas pelas três clichês palavras que incessantemente repetimos um ao outro. Eu amo você. E há estrelas que deixam de brilhar, há pássaros que deixam de cantar, há corações que param de bater. Não importa. Esse amor me consome com uma força incomparável, e eu sei que é eterno. Não há amor que deixa de viver.

Raíssa César, pós-te-ver.

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Anonymous: Porque voce escreve sobre as estrelas ainda se nao ama mais elas? Se nao olha mais pro ceu a noite..

Eu olho para o céu em todas as noites e agradeço a Deus por existir um mundo tão lindo. Eu sempre vou amar as estrelas. Para sempre. Elas são parte de mim, nada no mundo será capaz de me fazer perder isso.

+ a dança

poemas são como canções 

pedem para ser lidos muitas vezes

a cada leitura o corpo  
 pen 
        de

para um
  la
        do

diferente

Ehre

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Eu não posso mais brincar de esconde-esconde num cômodo sem paredes ou móveis. Ele ri. Eu não posso mais brincar, entende? Não. Ele não entende. Eu rio e me perco. Ele se perde em mim, eu me perco nas minhas linhas sem sentido que me levam a nada. Brincar… Escrever e brincar. Ouvir, falar e brincar. Amar e brincar. Amar. Eu não posso mais amar. Entende? Ele ri. Eu choro. Eu rio, ele chora. Nós dizemos adeus. Ele ri, chora, faz hora. Vira-se. E vai embora.

Raíssa César, brincar.

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Resolvi entrar aqui depois de tanto tempo e acho que foi um dos maiores sentimentos de nostalgia por mim já vividos. Tantas mensagens lindas, tantos amigos perdidos, tantas histórias terrivelmente findadas, tantos sorrisos e lágrimas passados… Foi como um ninho de pássaros decidindo abrir as asas dentro de mim. Queria pedir perdão pela minha falta, mas o compromisso com o futuro vestibular não me deixa ser presente como antes. Prometo que voltarei, assim que puder. Por enquanto, porém, ficarei com a saudade de tempos perdidos e com a esperança de um possível retorno assíduo. Obrigada a todos que fizeram parte dessa pequena história e, principalmente, a todos aqueles inspiradores de textos. Voltarei. Prometo que voltarei. Prometam-me que esperarão.

Raíssa.



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