Antítese do Amor

Se tivesse asas, voaria.

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Eu abro e fecho os olhos a cada cinco minutos numa esperança cega de que você surja, abruptamente, à minha frente.
Eu desisto de tentar e permaneço de olhos abertos,
molhados,
vermelhos,
inchados.

Foi assim, meu bem, foi assim que você me deixou. Cheia de um vazio mórbido que não parece cessar.
Cheia de pedaços
inconsistentes
de um passado, hoje, irreconhecível.

Eu poderia manter meus olhos arregalados por dias, dias,
horas, horas, horas,
anos, anos, anos, anos…
E você não apareceria.

Decidi, então, manter-los cerrados.
Talvez, assim, você surja em sonhos quebrados,
manchados de sangue e de um amor inacabado.
Talvez, assim, eu tenha você.

Fecharei os olhos, meu bem.
Fecharei-os para sempre.

Raíssa César, olhos fechados.

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Leia minhas entrelinhas, meu bem,
leia-as.
Se você ler,
você volta.
Se voltar,
fica?

R.

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Meu Henrique,

famoso é o dia de hoje, no qual comemora-se (é essa a palavra certa?) a possibilidade inoportuna de contar uma mentira sem receber castigo algum. Eu, que raramente participo desse tipo de brincadeira, fui enganada das mais variadas maneiras. Disseram-me que havia um inseto gigante na minha roupa, que todas as fotos da minha câmera tinham sido apagadas, que mudaram o dia da prova e que tinha um cabelo branco em meio aos meus fios castanhos. Tudo, obviamente, uma suave e inocente brincadeira.

No entanto, Henrique, a maior mentira que, hoje, me contaram, lembrou-me de nós. Lembrou-me daquele dia em que, sentados no balanço do parque, você trouxe uma tulipa vermelha e encaixou-a em meus cabelos despenteados pelo vento. Lembrou-me da sua voz sussurrando ao meu ouvido que as estrelas poderiam cair sobre nós, que o céu inteiro poderia chorar sua dor ao perder aquelas que o iluminavam, que os nossos corações poderiam ser arrancados do peito e jogados em buracos negros, mas que seu amor por mim seria eterno.

E não era dia de mentir, Henrique, não era… Não era dia de gritar ao céu seu amor por mim e desafiá-lo a nos separar, meu bem, se você não estava realmente disposto e mover a abóboda celeste em prol do nosso sentimento. Não era dia de pegar-me no colo e cantar nos meus ouvidos a música mais delicada que seus doces lábios poderiam recitar, se nenhuma nota daquelas, em tom maior ou menor, era condizente com o que seu coração sentia.

Não, Henrique. Não era permitido a você me dar asas e cortá-las ao primeiro vendaval que tentasse nos tirar da rota. E você, logo você, que sempre soube como lidar com meu coração sem atear-lhe fogo, foi quem amarrou-me pelo peito e deixou que eu caísse em um abismo que nenhum de nós sabia a profundidade.

E eu ainda caio, Henrique… Eu caio a cada dia que penso em você.

E, então, mentiram dizendo que meu coração não precisava mais da sua respiração contínua ao meu lado para funcionar direito. Disseram-me que eu poderia viver sem você, mas estavam errados, é certo. Eu nunca pude.

Mentiram, diariamente, desde seu último olhar para dentro da minha alma, para que eu tentasse viver num mundo no qual você não estaria presente para me ensinar a voar e me levar ao céu. E eu me enganei todo esse tempo para, ironicamente, encontrar-me em pura verdade no único dia do ano em que se pode mentir descaradamente.

Essa é a verdade, Henrique: eu não posso viver sem você e nem saberia como. Eu não sei como bater asas para te encontrar no meio de um caminho não definido, porque você nunca me disse para onde iria. E o problema, meu bem, é que eu cansei de enganar-me com doces ilusões e consolos que apenas servirão para me fazer cair por terra quando a verdade absoluta por trás dessas mentiras aparecer.

Se eu dissesse que ainda penso em você, o que você faria? Continuaria seu voo em uma caminhada eterna sem mim ou desceria para me buscar e tentar um recomeço incerto?
Ainda espero por suas improváveis respostas a um coração quase morto.

Sua, apenas sua,
Alice.

Raíssa César, espera sem fim.

 

 

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Você seria estranho para mim, e então seria qualquer coisa. Como uma flor extraída da terra, quando a gente sabe que não dá mais para cuidar depois que perde. E talvez você fosse nada ao mesmo tempo, se eu não te amasse tanto assim. Você seria mais uma dessas distâncias que a gente não entende o motivo de existir, sabendo que todo o tempo levaria consigo um pedaço de tudo aquilo que já nos doeu, e os motivos, as flores, os castigos, as saudades, os beijos roubados, os suspiros por cada dia que você não está aqui. Cada miserável dia pelo qual não posso te encontrar, mas são tantos desencontros, tantos acasos que me trouxeram até a sua vida. Tantas chances furadas e tantas outras bocas que nunca me tocaram como o desejo pela sua me toca, e me arrasa. Você poderia ser mais um se não tivesse o meu coração entre os dedos, se meus risos não refletissem a vontade de morar nas tuas alegrias, fazer parte daquela piada sem graça que você conta nas danças de rua, no trabalho, no cansaço e até nos dias que seu corpo todo pede um minuto de sossego. E toda essa lonjura seria bonita se não doesse tanto. Quando vejo, já estou pedindo desculpa se as vezes caio em tentação, se exijo demais, preciso demais, faço birra e te peço para ficar quando não pode. Eu sei que não sou razoável quando você quer ficar nos seus silêncios, nos seus cantos escuros, nas suas reservas, nos seus não-aconteceu-nada.

Mas é que aconteceu, sim. Nunca te disse do jeito certo e acho que nunca vou dizer. Eu poderia passar o resto da minha vida explicando, explicando que o azul do céu não é por acaso, que as estrelas são pequenas flores que Deus cultiva entre as nuvens. Passaria o resto da minha vida explicando que não, o amor não é errado; que a dança é torta porque os pés não acompanham o ritmo da música, que as pessoas têm esse péssimo hábito de atirar antes de ouvir, antes de ler. E que todo mundo está morrendo a cada segundo, principalmente por uma sede incomum de vingança pelas falhas, os demônios soltos pela boca em forma de palavras, depois ainda observam o leve tremor no canto dos lábios de quem ouve e dizendo que foi sem querer, sem pensar, sem saber que doeria. É mentira. Eles sabem. Eles sempre sabem. O que quero dizer, na verdade, é que poderia passar o resto da minha vida explicando que te amo, em carne viva, como fogo em brasa. Que te amo quando escuto o silêncio do domingo. Que te amo quando me esqueço na primeira gota de chuva e te esqueço também, sem deixar de ouvir um sussurro me corroendo por dentro. Em cada tudo-bem-não-estar-bem que escrevo no papel, em cada arrebento, em cada vez que não vejo a luz do dia, em cada lágrima salgada que me faz gritar aos quatro ventos, preciso-tanto-de-um-milagre.

Estou dizendo agora: Preciso de um milagre. De algo que me toque. Meus sonhos… onde estão? Por que não os vejo? Por que não os sinto? Onde estão? Cadê você?

Camila M. Paiffer, por favor, me toque. Com seus silêncios, seus gritos, seus sussurros no vento, com qualquer coisa.

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Ouvir nossa musica de madrugada, sozinha, nunca me pareceu tão solitário como ontem à noite… Não que eu já tenha feito isso muitas outras vezes, mas foi uma experiência diferente. Nas outras vezes, eu ouvia para te sentir. Ontem, eu ouvi enquanto te sentia. Estranho, não? Acostumei-me à ideia de estar com você. Ao ouvir cada nota, meus pés, involuntariamente, teimaram em sair do chão. Teoria: eles perceberam que eu estava pela metade, tentaram me levar até você, porque meu coração gritava seu nome, e o grito era ecoado por cada parte do meu corpo. Se isso é verdade ou não, eu nunca vou saber, mas aconteceu, de fato: meus pés tentaram me fazer voar. Essa musica tem mania de me levar ao céu. Você, também. E a saudade, então, gosta de fazer com que testemos essa teoria do teletransporte todo o tempo, não é? Não vejo a hora de dar certo, já não aguento me sentir assim. Eu sei que te tenho no coração, isso nunca vai acabar, mas, às vezes, eu quero mais. Eu te quero fisicamente. Eu quero sentir seu corpo pressionado ao meu, seus beijos inebriantes, o calor da sua pele, que eu faria de tudo para que nunca se cessasse. Eu faria de tudo para te ter sem medidas… Eu faria de tudo, e farei de tudo, para ser eternamente sua, para eternizar cada instante ao seu lado, para fazer com que nosso amor seja, de fato, eterno. Eu prometo, meu Amor. Eu prometo te amar para sempre. Pro que der e vier. Eu vou. Com você.

Raíssa César, eternizo-me sua pelas palavras do meu coração.

 

 

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Eu sei que é carnaval e você está lá como todos os outros, mais um na multidão que o cerca em todos os lados, agitando os pés sob flores e mil cores de espuma, no bálsamo do samba e da gritaria, cantando que é de todo mundo. E sei que deveria estar lá também, na rua principal, dançando até esquecer de todos os tempos que me vêm à cabeça nessas horas. Não é culpa da lua, nem do sol, nem do céu. Minha mente continua doente, procurando um resquício onde não há nada.

Conheço esse jogo e sei que não vai me levar a lugar algum, que a loucura é um canto que faz barulho quando o silêncio enche o quarto. E não consigo esquecer que há alguns anos meu corpo inteiro ardia de expectativa para dançar, para cantar, para pular carnaval e encontrar o sabor de outras bocas, mesmo que a chuva viesse; e sorrir, rir dos amigos que estavam bêbados, da minha própria alegria, dos confetes e das danças. Mas o inverno chegou, você chegou, e toda essa bagunça perdeu a graça.

A verdade é que você estava lá ontem, e antes, e hoje, sem dúvida com as mãos perdidas na pele de outrem. Delas, um mar delas. Queria tanto que elas o rejeitassem, que não quisessem vê-lo, que não desejassem que seus lábios tocassem o delas. Que o seu olhar não fosse um buraco negro de mil estrelas. Que o seu riso não fosse tão bonito. Sei que está com um orvalho de suor, a voz rouca de tanto cantar, você sempre foi tão feliz. Isso me dói. Eu sei, amor, eu sei que no fim é para os meus suspiros e sussurros que você volta. Sei que nós combinamos que iríamos aproveitar todas as chances, que a saudade seria um motivo para o regresso e não um pretexto para ir embora.

Não vou.
Mesmo que eu quisesse ir, não vou.
Estou provando cada pedaço de loucura, de sons fantasmas, de palhaços e rumores. Quero o fim, pois é lá que tudo começa a dar certo. Dança, meu amor, pula carnaval e beija outras bocas, ri outros risos. Depois volta, dizendo baixo que a vida não é isso, mas… isso.

E me ama.

C, a vida não é só isso.

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Não estou conseguindo responder às perguntas… Então, à pergunta anônima: “Por que escreve todas estas coisas?”, minha resposta:

Na maioria das vezes, apenas por motivos literários. Eu gosto de inventar histórias ou de basear-me em antigas histórias para escrever, mesmo que eu não esteja sentindo nada daquilo mais… Às vezes, eu me lembro de coisas e, bum!, escrevo. As cartas para Henrique são cartas para pessoas que já passaram na minha vida e que marcaram de alguma forma. Muitas vezes, a personalidade de Henrique é uma mistura de personagens reais. E aí eu escrevo para ele coisas que deveria ter dito há tempos… Muitas delas não fazem sentido mais, mas é bom escrever. Se o leitor é um daqueles para os quais escrevo, resta apenas a ele saber qual parte destina-se a ele e qual parte destina-se a outros.



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